quarta-feira, 26 de abril de 2017

CARTA RESPOSTA AO ESCRIVÃO PERO VAZ DE CAMINHA

Por: Lucilene Ferreira Pereira Silva & Samara Teodoro Nunes 
São Paulo, 22 de Abril de 2017
Ao senhor Pero Vaz de Caminha escrevemos esta que se propõe apontar como se encontra alguns fatores dessa terra em comparação com suas descrições na carta escrita e assinada no dia 1º de maio de 1500, direcionada ao rei de Portugal, Dom Manuel.
Primeiro é necessário que se diga que sua descrição, do que se propôs a chamar de “achamento”, tornou-se uma fonte muito importante para que pudéssemos compreender como se deu tal acontecimento e as características desse importante período de nossa história. Sua escrita desperta em nós ainda, a vontade de ler os relatos e anotações dos outros tripulantes que, segundo suas palavras, escreveram sobre e viagem e também sobre o ponto de vista deles a respeito dessa nova terra. Como não podemos contar com elas nos limitamos a comentar apenas sua importante carta.
Em sua carta o senhor relata que ao chegarem aqui se depararam com uma quantia pouca de nativos. Como foi verificado por vocês mesmos, essa quantidade de nativos ia aos poucos se demonstrando não tão pouca assim. Segundo historiadores e outros estudiosos, quando vocês aqui chegaram eles eram cerca de 6 milhões. Caminha, os números que você aponta ter visto é de 50, 60 até 100 nativos reunidos em uma mesma praia. Fica claro a disparidade entre esses dados, não é mesmo? Isso tem relação com outra questão que debateremos mais a frente. O tamanho dessa nova terra era bem maior do que a vista ou o imaginário de vocês podiam prever. O tamanho dessa terra era e ainda é capaz de conter um número bem maior de nativos avistados por vocês durante essa viagem.
Caminha, talvez esses números que te passei lhe causem espanto e te leve a pensar que esses nativos nos dias de hoje sejam maioria no meio de nossa atual população. Porém, sinto lhe informar que na realidade o que aconteceu e ainda acontece com esses nativos é um enorme genocídio. Eles tiverem sua população total extremamente reduzida. O senhor relata na carta que ocorreu uma reunião entre vocês para decidirem se seria bom levar a força alguns dos nativos para o Rei Dom Manuel. Embora tenham concluído ser desnecessário tal ato naquele momento, ele ocorreu de um modo brutal e covarde nos anos que se sucederam. Estima-se que hoje tenhamos apenas um número próximo a 900 mil pessoas que se dizem pertencer a povos diretamente ligados aos nativos. Quanto ao termo que se usa para identificar esses povos trataremos mais adiante. Esse número fica ainda menos expressivo se comparado com o número da população total de nossa terra que é de cerca de 2.9 milhões de habitantes. Eles, que eram a maioria, hoje não o são mais. Dentre os que dizem fazem parte desse grupo, muitos têm hábitos e costumes diferentes. São poucos os que vivem de um modo extremamente parecido com aqueles que vocês encontraram aqui em 1500.
Para nós foi de grande novidade ler em sua carta que logo nos primeiros dias de contato com os nativos vocês desenvolveram o que habituou-se chamar de escambo. Aos poucos, com isso, foi se conseguindo desarmar os nativos de seus arcos, flechas e outras armas e ferramentas que por eles eram trocadas pelos adornos e novidades que (ainda que não muito valiosos para vocês) por vocês eram trazidos.
Outro fator de extrema importância que julgamos te informar Caminha, é como se habituou chamar esses povos nativos. Aqui se acreditou por muito tempo que vocês pudessem achar estarem perdidos em alguma região desconhecida das Índias. Porém não se acha respaldo para tal afirmação nem mesmo em sua carta. A questão é que passaram a chama-los assim pelo fato de buscarem um novo caminho para as Índias. Cristóvão Colombo, a mando da coroa espanhola, buscava esse caminho contornando o globo terrestre. Ao se deparar com a região central desse tão grande continente, acreditou ele ter chegado as Índias. Acreditou que os habitantes dessa terra seriam indianos, ou índios. Assim sendo, o termo índio passou a ser utilizado para se referir aos nativos que aqui estavam na época da colonização da América.
Eles, que eram donos da terra, hoje lutam para garantir que ao menos pedaços “pequenos” dessa terra não sejam invadidos e destruídos pelos que eles chamam de “homens brancos”. Tentam, nas leis desses homens brancos, garantir essa proteção da terra. Aliás, é valido dizer Caminha que toda aquela beleza com a qual vocês de depararam aqui não se encontra do mesmo modo em que vocês a encontraram. Desmataram quilômetros e quilômetros de terras. Os animais, cuja algumas espécies vocês chegaram a enviar para o Rei Dom Manuel, ou estão com risco enorme de extinção ou já não existem mais por aqui. O ouro e outros metais aos quais vocês estavam interessados a encontrar, só foi achado alguns anos depois do “achamento”, boa parte numa região hoje denominada como Minas Gerais, que fica no interior dessa terra. No caminho, foram deixando os corpos de centenas e centenas de indígenas. Ao retornarem para os navios levavam todos os metais extraídos para com eles acumularem riquezas na metrópole. Sistema esse ao qual você já deve estar acostumado a ver ser desenvolvido, caro Caminha. Com ele, a natureza nativa também sofreu impactos grandiosos além de pôr fim a vida de garimpeiros que nessas minas trabalhavam. Alguns garimpos (poucos) resistem até os dias de hoje, embora a cada ano tem se encontrado uma maior dificuldade para encontrar o que se extrair.
No que diz respeito a extração vegetal (de Pau-Brasil) podemos dizer que ela deu lugar a plantação de cana-de-açúcar e em seguida, de café. Após isso, veio a criação de gados. E hoje temos inúmeras fontes de plantação e criação de animais em nossa terra, acabando assim com a vegetação natural. Isso sem falar nos impactos que isso causa aos rios de águas tão puras que vocês encontraram aqui. Eles estão cada vez mais raros.
Nos causou espanto Caminha, perceber que em sua carta é feita a afirmativa de que esses nativos (os índios) não tinham fé alguma. Porém, isso hoje pode ser visto como um enorme engano de sua parte. Os índios tinham sim sua fé. Ela era, em muitas tribos, depositada nos elementos da natureza (chuva, sol, arvores, animais). Esses elementos eram venerados e a eles criado narrativas de mitos e lendas que buscavam explicar questões naturais ao seres humanos.
Em um dado momento em sua carta o senhor nos conta que esses índios, ao verem a cruz de Cristo (confeccionada por vocês e com a ajuda deles), e ao perceberem que vocês veneravam tal objeto, eles também se juntavam ao ato e ainda apontavam para ela e para o céu. Isso não demonstra um claro entendimento de que aqueles povos compreendiam a existência de algum ser além terra? Esse ser não pode ser apontado como “Deus”, ou “deus” que seja? Quanto a isso, informamos que a fé deles, ou pontos da fé deles foram agregados a outras religiões oriundas do sincretismo entre a fé cristã, africana e também indígena.
Caminha, outro ponto rico de sua carta é quando se trata da nudez dos povos nativos e do constrangimento momentâneo que os homens das naus portuguesas tiveram ao se deparar com as índias desnudas. Sua criatividade ao detalhar a beleza dessa nudez nos faz pensar e afirmar que entre alguns desses portugueses e algumas dessas índias se desenvolveu algum tipo de relacionamento, sexual apenas ou até mesmo algo mais duradouro, haja vista que é relatado em sua carta que alguns desses homens escolheram ficar nessa terra. Mais à frente esse ato de relação entre os povos deu origem ao que chamamos de miscigenação, responsável pela enorme mistura dos povos. Essa mistura não se deu apenas entre os portugueses e os índios. A miscigenação ocorreu também com os povos africanos que mais a frente os seus compatriotas trouxeram para cá para serem escravizados e com outros povos que “de boa vontade” passaram a viver nessa terra após alguns anos depois de 1500.
Caminha, você estava certo quando afirmou acreditar que essa terra era imensa pelo fato de perceber que ela se dava a perder de vista. Para se ter uma ideia a área que ocupamos hoje é de 8.515.767,049 Km² em extensão de terra.
Por fim, não podemos deixar de te informar o nome pelo qual chamamos essa terra. Antes, listaremos ao senhor os nomes pelo qual ele foi chamado ao longo de nossa história: Pindorama (nome dado pelos indígenas); Ilha de Vera Cruz, em 1500; Terra Nova em 1501; Terra dos Papagaios, em 1501; Terra de Vera Cruz, em 1503; Terra de Santa Cruz, em 1503; Terra Santa Cruz do Brasil, em 1505; Terra do Brasil, em 1505; Brasil, em 1527. Estados Unidos do Brasil, em 1889.
Em 1822 nos tornamos uma nação totalmente independente de Portugal, más só recentemente (1969) passamos a nos chamar pelo nome oficial de República Federativa do Brasil.
Assim, nosso agradecimento se fez pela elaboração da importante escrita a qual habituamos chamar de “Certidão de Nascimento do Brasil” (ou ainda “Certidão de Batismo”) e pela atenção a essa simples carta de direcionamos a ti.
Sem mais a tratar, atenciosamente: Lucilene e Samara, direto do Brasil
Brasil, 22 de Abril de 2017.
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REVISADO POR BRUNO JUBRAC
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
CORTESÃO, J. Carta de Pero Vaz de Caminha a El-Rei D. Manuel sobre o Achamento do Brasil. Texto integral. São Paulo: Martin Claret, 2003.


IBGE. Área Territorial Brasileira. Link < http://www.ibge.gov.br/home/geociencias/cartografia/default_territ_area.shtm>. Visualizado no dia 20 de abril de 2017.

RIBEIRO; Berta, 1924-1997. O índio na história do Brasil / Berta Ribeiro. 12. Ed. – São Paulo: Global 2009.